Entre pergaminhos e tesouros – II

Publicação: 21 de maio de 2011

Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 1875.

O dia amanheceu fabuloso, esta manhã parece realmente promissora. Finalmente o calor abrandou um pouco, pois eu já começava a temer por Helena, minha irmã caçula, que cismou de andar por aqui seguindo a risca à moda européia. Mesmo que nós a pouco tenhamos passado pelo solstício de verão.

Decidi registrar um dia de minha vida comum, pois sem ele seria impossível traçar um paralelo entre ela e qualquer fato mais exótico que me ocorra que eu vá registrar em anotações vindouras.

Não que eu acredite nessas crendices, mas hoje me parece um dia em que o Universo vai conspirar ao meu favor. Talvez eu esteja dizendo isso apenas por Ivone, nossa governanta, ter comprados os pêssegos que tanto gosto para o café da manhã, mas pode ser também por que as férias do senhor Ferraz estão próximas e ele precisará de alguém para substituí-lo na biblioteca. E se correr tudo bem posso tornar-me sua substituta permanente quando ele se aposentar no ano que vem.

E se vai Carolina toda sorridente para a Biblioteca Imperial e Pública da Corte, usando seu melhor chapéu, caminhando a passos curtos, mas muito rápidos levando o parassol nas mãos.

– Bom dia senhor Ferraz.

– Bom dia senhorita Oliveira, que posso ajudá-la hoje?

– Poderia mostrar-me o que o senhor tem de mais antigo, por favor?

– Minha criança bem sabe que as peças raras dessa coleção são de uso exclusivo de sua alteza imperial e de seus ministros.

– Mas senhor Ferraz, a quantos anos que freqüento este local?

– Ao menos doze.

– Na realidade foram catorze, mas diga-me eu já lhe causei algum embaraço durante esse período?

– De modo algum.

– Já danifiquei algum de seus livros.

– Não.

– Que mal posso fazer na sessão reservada?

– Lá existem obras que apenas são para os olhos do Imperador.

– Então as aponte que passei de largo delas. Além do mais, a quanto tempo Vossa Alteza Imperial não vem até aqui?

– Algumas semanas, o que quer dizer que ele pode aparecer a qualquer momento.

– Mas senhor Ferraz já li tudo que consigo compreender daqui. Até mesmo li dicionários inteiros de outros idiomas apenas para aumentar minha lista de leituras possíveis.

– Sinto muito minha cara, mas sem a permissão expressa do Imperador não a nada que eu possa fazer.

– Nem se o senhor me tornar sua aprendiz?

O senhor Ferraz para por um instante, aquela jovem finalmente o tinha posto em cheque.

– Você não vai querer isso, passar a vida entre traças, poeira e bolor não é nada agradável, sem contar os ratos e baratas que aparecem ocasionalmente.

– Oh sim, eu quero isso, só de pensar em tudo que poderei aprender por passar a vida inteira cercada por livros.

– É uma vida cada vez mais solitária, desde que inventaram as ondas-curtas as pessoas passaram a trocar o livro pelo áudio-drama.

– Não me importo. Aqui é como um Templo Sagrado do Conhecimento e de bom grado serei sua sacerdotisa solitária se for preciso.

O senhor Ferraz para novamente para avaliar as palavras dela, e Carolina por sua vez passar a avaliar o que acabará de dizer.

“Templo Sagrado do Conhecimento”, “Sacerdotisa solitária” onde eu estava com a cabeça ao dizer isso, céus, porque eu tinha de ler justamente sobre civilizações pré-colombianas essa semana, com tantos outros temas que poderiam ter me inspirado eu tinha de escolher justamente um tão fantasioso.

Por fim, o senhor Ferraz suspira e diz:

– Esta bem. Você venceu, a partir de amanhã será minha aprendiza. Mas antes de qualquer coisa, preciso informar isso ao ministério.

– Muito obrigada senhor Ferraz.

– Venha amanhã bem cedo, se bem que para você isso não será problema. Agora me ajude, pegue aquela placa encostada ali. Preciso deixar o aviso de que fechamos por razão excepcional.

– Não se preocupe senhor Ferraz, eu posso tomar conta enquanto o senhor estiver fora.

Ele a encara estreitando os olhos.

– Está bem, mas a chave da sessão reservada vai comigo.

Ela afirma com a cabeça e então pegando seu chapéu ele se vai.

Carolina então sorri, poderia dançar bem ali se houvesse música, não cabendo em si de tanta felicidade, estava a um passo de seu maior sonho. Ela então vasculha as prateleiras em busca de algo que lhe chame atenção, hoje parece um bom dia para poesia, então escolhe os sonetos de Camões para lhe fazerem companhia até que o senhor Ferraz volte.

Empolgada em sua leitura já estava terminando o vigésimo soneto quando as portas da biblioteca se abrem. Mas para sua decepção não era o senhor Ferraz que regressava com sua autorização de serviço, era um rapazinho que nunca vira, pela poeira em suas roupas parecia ser um viajante. Talvez tivesse entrado ali apenas para descansar e fugir um pouco do sol como já vira outros tantos fazerem.

O rapazinho esbaforido vai direto em direção a ela.

– Onde está o senhor Ferraz?

– Ele teve de se ausentar por alguns instantes, posso ajudá-lo em alguma coisa?

– Não, isso é algo que apenas ele seria capaz de resolver.

– O senhor veio atrás de algo da sessão reservada?

– Não, preciso que ele traduza algo.

– Deixe-me ver? Sou boa com outros idiomas.

– Está bem, mas essa é uma língua morta, não fique triste se não conseguir compreender.

– Ora veja só, é latim.

– Consegue entender?

– É claro, mas isso aqui não está completo. Aqui diz: Nosso segredo e nosso fardo descansaram eternamente conosco, eu que nunca me afastei de nossos pais, um que sob a selva sucumbiu, se perdeu em meio às águas do…

– E…?

– Termina aí, eu disse que estava incompleto, o que é isso?

– Acredito que seja um mapa, ou melhor, uma pista que nos levará a um tesouro.

– Uma caça ao tesouro em pleno século XIX?

– Porque não haveria? Acaso desenterraram todos durante a idade média.

Carolina então para por um instante, de fato ele poderia ter razão, mas antes que ela pudesse que responder qualquer coisa ele então declara:

– Por favor, venha comigo.

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