Entre pergaminhos e tesouros – III

Publicação: 24 de maio de 2011

E lá estava eu ali parada no meio da Biblioteca Imperial com um completo desconhecido segurando minhas mãos e pedindo que eu o acompanhe.

Depois de instantes de silêncio que pareceram durar uma eternidade ouço um sonoro pigarro as minhas costas. O senhor Ferraz estava parado as portas da biblioteca encarando-me como se eu fosse uma delinqüente pega em fragrante.

– Então é para isso que tanto querias trabalhar aqui? Se vocês estão assim no hall principal imagino o que não teriam em mente para a sessão reservada.

Logicamente fico corada diante de tal injuria ao meu respeito e corro para desvencilhar minhas mãos das do rapaz.

– De modo algum senhor Ferraz, nem sequer sei o nome desse jovem tão atrevido. Ele me pediu uma tradução do latim, e quando a fiz ele passou a agir dessa forma.

– Hum, deixe me ver o que ele pretendia traduzir.

– Certamente professor. Vim aqui procurá-lo para isso, mas sua assistente resolveu parte do meu problema.

– Aqui diz algo sobre um segredo ou um fardo, de três irmãos que se separaram um ficou com os pais, um que desapareceu na selva e o outro num naufrágio.

– Foi mais ou menos isso que ela me disse. – só que com mais poesia – diz para si mesmo.

– O que isso quer dizer?

– Acredito que seja uma pista professor Ferraz. Esse fragmento estava dentro de um livro que fora arrematado num leilão do Estado. Pela dedicatória o livro pertencera a um diácono espanhol.

– Uma pista para o quê?

– Um tesouro templário professor.

– Como disse? Por acaso não pretende sair por aí numa busca desvairada atrás do Graal?

– De modo algum professor o senhor Novaes me garantiu que se tratam dos bens que os antigos templários entregavam ao entrar para a Ordem para então receber uma nota de troca para algo equivalente no próximo posto.

– O senhor por acaso disse Novaes?

– Sim, o professor o conhece?

– Tive o desprazer de conhecê-lo. E achei que não teria mais de ouvir sobre essa corja quando deixei Pernambuco.

– Pode não ser o mesmo homem, era Alonso Novaes?

– Não profane meu templo da sabedoria, como diz a senhorita Oliveira, com o nome deste bastardo.

– O que houve senhor Ferraz, nunca o vi tão irado assim.

– O homem a quem ele serve roubou minha pesquisa, meu título, acusou-me de plágio e ridicularizou-me diante de toda sociedade acadêmica pernambucana. Ponha-se daqui para fora!

– Mas professor, o senhor Novaes pediu encarecidamente por sua ajuda.

– BASTA! Saia! Nada tenho a tratar com ele! Diga-lhe que sua busca é uma piada e que espero que ele morra tentando e que seja apagado da história.

Uma veia pulsava violentamente na testa do senhor Ferraz, nunca tinha o visto tão irado, nem quando as crianças gritavam ou rasgavam algum livro ele ralhava dessa forma.

O jovem então caminha resignado para fora da biblioteca, sem argumentos para rebater sua recusa.

O senhor Ferraz parece arrasado, depois de se exaltar tanto seu semblante parece profundamente abatido.

– Venha senhor Ferraz, sente-se um pouco, ele não virá mais aqui.

– Aquele bastardo, como se atreveu a pedir minha ajuda depois de tudo que me fez. E se quer teve culhões o bastante para vir pessoalmente.

– É verdade, pobre rapaz não sabia de nada e mesmo assim tudo desabou sobre ele.

– Qual era mesmo o nome dele? Mandarei lhe uma nota escusando-me mais tarde.

– Ele não disse.

– Que pena.

O senhor Ferraz então lembrou se do envelope, agora muito amassado vítima de sua ira, que trazia em sua mão. O lacre de cera rubra desfizera-se quase que totalmente e o papel pardo estava completamente marcado.

– Oh, desculpe-me senhorita, mas isto é seu.

– É do ministério?

– Sim, é. Abra, pois mesmo eu desconheço seu conteúdo.

Abri aquele envelope coberta por ansiedade.

– Sim, eu posso vir a ser sua aprendiza! Mas para isso diz que eu devo comparecer ao ministério em fevereiro próximo e passar pelo crivo deles.

Meu sorriso se desvanece penso: – Fevereiro, faltam quase dois meses até lá. Quanta burocracia!

– Que tipo de teste eles costumam fazer senhor Ferraz?

– Normalmente conhecimento histórico e teórico, sem contar os testes de organização e memorização.

Levo a mão à boca e mordisco a lateral do dedo indicador apreensiva.

– Mas não se preocupe, não é nada que seja muito complexo.

Respiro um pouco mais aliviada.

– Senhor Ferraz estou indo para casa almoçar, gostaria de vir comigo e contar a boa nova a todos?

– Em outras circunstâncias ficaria muito honrado. Mas hoje, minha cara, perdi completamente o apetite, contudo vá logo, não se detenha por causa desse velho.

E quase que flutuando deixo a biblioteca, mas ao abrir meu parassol ao atravessar a rua dou de cara com o jovem que fora a biblioteca mais cedo.

– Oh desculpe-me, por favor.

– Não há problema algum senhorita…?

– Oliveira, Carolina Oliveira, e o senhor qual seu nome mesmo?

– Perdoe-me por não tê-lo dito antes, Diego Gwalch. Poderia acompanhá-la?

– Não é um caminho muito longo, moro ao fim da rua, portanto pode sim.

– Primeiramente gostaria que me perdoasse por todo o infortúnio que acabei lhe causando. Mas gostaria de lhe dizer que o convite feito mais cedo ainda é válido.

Fico imensamente corada diante de tal afirmação, ao lembrar-me dele agarrando minha mão e dizendo: “- Por favor, venha comigo.” Ele nota meu embaraço e prontamente completa a frase.

– O bilhete, a senhorita disse que era apenas um fragmento, é verdade, existem mais pistas, mas de modo algum o senhor Novaes me permitiria sair com todas elas. Gostaria que viesse comigo ao Jardim Botânico, a casa em que nos instalamos fica por lá.

– Sinto muito, mas nossa conversa terá de terminar aqui, essa é a minha casa, e meu pai não gostaria de ver-me de cochichos com um rapaz em frente ao portão. Aquela é a minha janela, passe por aqui amanhã a tarde, se houver um lenço branco preso a ela irei com você até lá.

Faço então uma mesura com o vestido e preparo-me para entrar, ele então segura novamente a minha mão, a beija e despedes-se com um: “- Até amanhã.”

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Uma Resposta para
     “Entre pergaminhos e tesouros – III”

  • Ronaldo Santana da Silva disse: 24 de maio de 2011

    A história está caminhando de uma forma bem interessante. os diálogos estão muito bons e envolventes. to curtindo a trama. Fico no aguardo do próximo capítulo.

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