Entre Pergaminhos e Tesouros – IV

Publicação: 27 de maio de 2011

Apresso-me para entrar em casa, ao fechar a porta ouço sorrisinhos abafados as minhas costas, eram de minha irmã caçula Helena.

– Hum, cortejada aos portões de casa, parece que alguém finalmente resolveu esquecer os livros e crescer um pouco, pena que papai não vai gostar nada disso.

– Sua boba, como se eu fosse dessas, o interesse dele por mim é meramente profissional. Precisa que eu traduza alguns escritos em latim.

– Hum, sei, latim, língua morta. Que coisa mais sem graça, ao menos ele é um tipo bem garboso.

– Um tipo bem atrevido diria eu. Mas ainda não decidi se aceitarei o trabalho.

– Aceite, pelo menos terei algo para entreter as vistas quando ele estiver por aqui.

– Fiquei de decidir até amanhã. E porque achas que as traduções seriam feitas aqui?

– Ora está me saindo melhor que a encomenda, pretende ir a casa dele para traduzir a sois?

Coro com isso.

– Evidente que não, se aceitar, será na biblioteca de traduzirei. Posso esbarrar num vocábulo mais arcaico, precisarei de dicionários.

– Realmente adoro ter essas conversas com você, ficas corada tão fácil.

Irrito-me por ter perdido meu tempo caindo na conversa dela, vou ao meu quarto e tranco a porta.

– Ah Carolina não me leve a mal, acontece que é realmente divertido vê-la corando e tentando esconder seu sorriso nervoso e encabulado.

– Deixe-me em paz Helena, quero ler um pouco.

– Você já leu o suficiente para uma vida inteira, o que você precisa é ver o mundo, sair mais, conversar mais e fazer umas compras.

– Não, estou bem feliz como sou. Agora vá.

– Tá menina chata, se precisar de mim estarei lá fora vivendo.

Ouço seus passos de distanciando então  destranco a porta. Sobre o tocador está meu caderninho, o pego e atiro-me na cama,  afinal hoje é um dia que merece ser registrado.


Acabei adormecendo em meio as minhas anotações, quando acordei já era noite, e Helena lia minhas memórias.

– Hum, alto e galante de olhos negros. Parece que a menina cresceu afinal.

– Helena!

Corro tentando tirar meu caderninho de suas mãos.

– É que você estava dormindo tão bonitinha segurando isso, que fiquei morrendo de curiosidade para ver o que era.

– Você não me vê fuçando seus potes de ruge.

– Pois deveria, não é adequado a uma dama com idade o bastante para ser cortejada andar por aí simplesmente de cara limpa.

– Além do mais foi apenas um comentário, não é como se eu gostasse dele ou algo assim. Até parece que haverá um lenço branco na janela amanhã.

– Então era esse o sinal.

– Ah!

Oh céus falei demais, agora ela vai me importunar com isso até amanhã. Ao menos com isso ela baixou a guarda e consegui reaver meu caderninho.

Corro com ele para o banheiro e tranco a porta, e só então me pergunto: – “Por que é que eu estou fazendo isso, só tinham duas páginas escritas aqui, ela já deve ter lido tudo mesmo. Além do mais não há nada aqui que eu deva esconder. Mas já que estou por aqui, vou aproveitar para tomar um banho antes do jantar. ”

O jantar seguiu tranqüilo excetuando alguns momentos em que Helena cismava em falar sobre latim, ou perguntar qual era o nome científico do que quer que estivesse degustando. Incrível como ela consegue ser tão direta e sutil ao mesmo tempo.

Até mesmo meu pai pareceu surpreso com o repentino interesse dela pelo idioma, mas para ele disse que é sempre bom aprender, afinal nunca se sabe quando o conhecimento de uma língua morta poderá ser útil e pediu em latim, com as palavras com as quais tinha alguma familiaridade por causa das missas que ele lhe passasse o pão.

Claro que as brincadeiras dela cessam completamente meu apetite. Portanto deixo a mesa mal tendo tocado a comida.

Dirijo-me a minha alcova e tento dormir cedo, mas tudo que consigo é um sono inquieto, repleto de lembranças incompletas e coisas estranhas como grandes dicionários voadores que tentavam devorar-me.

Na manhã seguinte acordo com o som do cantarolar de alguém eu meu lado, era Helena que improvisara um varal no beiral de minha janela e estava dando nozinhos em todos os lenços e guardanapos de linho branco da casa ali.

– Helena!

– Ora vejam quem acordou, bom dia flor do dia!

– Ah, obrigada, bom dia pra você também. – Então balanço a cabeça cobrando o fio da meada. – O que pensa que está fazendo aí?

– Sinalizando, oras ou já não se lembrava mais do sinal.

– E em algum momento eu disse que iria aceitar, vamos, saia já daí.

Ela então fica cheia de bicos para mim e sai toda pomposa.

– Hump, estraga prazer.

Vou até a sacada, mas quando estou prestes a começar ela diz:

– Vai mesmo ficar ai desatando isso vestida assim?

Oh céus, de camisola em plena sacada com o dia amanhecendo e as ruas começando a encher, não que meu traje fosse imoral, pelo contrário, era infantil demais.

Corro para trocar-me, visto um vestido simples, sem mangas e com vários botões, na presa acabo não fechando todos, mas de qualquer forma estou mais decente agora.

Finalmente começo a desatar os lenços da janela. Já estou com o colo quase coberto por eles quando começa a ventar e vez por outra um deles acaba rolando pelo chão. Quando finalmente desato o último o vento sopra um pouco mais forte, e ele voa, tento agarrá-lo, os que estão no meu colo espalham-se mas não consigo reavê-lo, placidamente ele vai flutuando até a calçada justamente na direção de Diego Gwalch que vinha chegando  e o pega antes que toque o chão, para então virar-se para minha janela, acenar com ele e fazer me reverência.

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3 Respostas para
     “Entre Pergaminhos e Tesouros – IV”

  • Ronaldo Santana da Silva disse: 27 de maio de 2011

    hahahaha, Helena é muito maneira! A história continua boa, vamos ver onde vai parar! E essa cena final é bem cinematográfica, mas curiosamente eu visualizei como uma animação. coisa de quem gosta de animê. hehehe. Parabéns pelo trabalho!

  • Luana Nascimento disse: 27 de maio de 2011

    Acredita que depois desse capítulo passei a gostar mais da Helena do que da irmã dela. =]

    Quero ver se consigo encaixa-la em mais capítulos. Era pra ela ser uma personagem secundária, mas até que ela conseguiu crescer bastante em cena.

    Detalhe, ela é inspirada numa pessoa que conheço, é claro que dei uma exagerada nos modos dela, para deixa-la mais divertida aos leitores.

  • Ronaldo Santana da Silva disse: 27 de maio de 2011

    A personagem merece uma atenção, mas não precisa forçar a barra. Ja ví que continuou escrevendo, não vou ler agora, mas amanhã eu volto pra ler os próximos capítulos! aproveito pra te convidar a ler a minha novela já publicada no meu site aijo. Procure pela categoria: Súcubo

    Não tem nada haver com o seu texto, por isso entenderei se não gostar, mas eu ficaria muito feliz de saber sua opinião! Beijo e boa noite!

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